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Educação por competências

Outubro 8, 2008

No contexto educativo, fala-se cada vez mais do ensino por competências. Esse novo modo de ensinar, usado pelos educadores, pode ajudar, em muito, na catequese.
Lembre-se dos últimos encontros catequéticos que deu: reuniu o grupo, falou, explicou, deu exemplos, celebrou e se desdobrou para que o grupo entendesse o tema.
Alguns até levantaram a mão para fazer uma ou outra pergunta, mas, no geral, todos ficaram quietos, “prestando atenção”.
Será que eles estavam realmente interessados? Depende.

É consenso entre os pensadores da educação que a criança só interioriza o que você ensina se estiver de alguma forma, ligada ao conteúdo por um desafio, uma motivação. Ou se perceber a importância e a aplicação de tudo aquilo que você quer transmitir.
Essa contextualização é uma das bases do ensino por competências, palavra de ordem da educação. O objectivo dessa abordagem é ensinar aos catequistas o que eles precisam aprender para ensinar seus catequizandos a serem cidadãos que saibam analisar, decidir, planejar, expor suas ideias e ouvir as dos outros.
Enfim, para que possam ter uma participação activa sobre a sociedade em que vivem.
Não há nenhuma receita simples para aprender a ensinar dentro dessa nova concepção. Pode-se começar por compreender como ela surgiu. Até a conferência de 1990 em Jomtien, na Tailândia — onde foi elaborada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos —, os processos educativos estavam calcados no que o físico e educador paulistano Luiz Carlos Menezes chama de ensino cartorial. Ou seja, um agrupamento de assuntos para memorizar ou exercícios para praticar à exaustão.
Naquele encontro, concluiu-se que havia necessidade de mudanças estruturais. Ficou claro que reformar a educação era uma prioridade mundial e as competências seriam o único caminho para oferecer, de facto, uma educação para todos. Tudo havia mudado: a sociedade, o mercado de trabalho, as relações humanas… só a educação continuava a mesma. Então, estava tudo errado? Não. O contexto social de épocas passadas aceitava aquela formação. O problema é que esse contexto não existe mais.
A sociedade tem hoje outras prioridades e exigências, em que a acção é o elemento chave. Simplesmente dar o conteúdo e esperar que ele seja reproduzido não forma o indivíduo. Quem não estiver preparado para o trabalho conceptual e criativo pode estar fadado à exclusão.
A catequese agora tem também o papel de ser espaço onde as relações humanas são moldadas. Deve ser usada para aprimorar valores e atitudes, além de capacitar o indivíduo na busca de Deus.

Mas, afinal, o que são essas competências? E como desenvolvê-las? O dicionário Aurélio define essa palavra como “qualidades de quem é capaz de apreciar e resolver certos assuntos”.
Ela significa ainda habilidade, aptidão, idoneidade. Muitos conceitos estão presentes nessa definição: competente é aquele que julga, avalia e pondera; acha a solução e decide, depois de examinar e discutir determinada situação, de forma conveniente e adequada. É ainda quem tem capacidade resultante de conhecimentos adquiridos.

Sim, agora são todos esses os objectivos que se deve perseguir ao elaborar um projecto pedagógico. Para Philippe Perrenoud, sociólogo suíço especialista em práticas pedagógicas, competência em educação é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos — como saberes, habilidades e informações — para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.
Outras necessidades estão ligadas a contextos culturais, profissionais e condições sociais. “Os seres humanos não vivem todos, as mesmas situações e as competências devem estar adaptadas a seu mundo”, teoriza Perrenoud. “Viver na selva das cidades exige dominar algumas delas; na floresta virgem, outras. Da mesma forma, os pobres têm problemas diferentes dos ricos para resolver.”

Diante desse quadro, a primeira dúvida que surge diz respeito aos conteúdos. Eles deixam de existir? Não. Ninguém aprende nada desvinculado do conhecimento teórico. Trata-se de trabalhar essas informações de forma diferente, dando-lhes significado. É o que se chama de ensino contextualizado. Uma coisa é você explicar no grupo um tema. Outra é comparar e testemunhar a vida com este tema.
A motivação é criada a partir da geração de conflitos. Resolver um desafio estimula o grupo. É mais importante que o catequizando saiba lidar com a informação do que simplesmente retê-la. Depois de lançada uma tarefa em que todos se envolvam, até uma catequese expositiva pode ter lugar. Nesse caso, ela estará inserida na resolução de um problema concreto e a teoria ganhará uma finalidade aplicável. Trabalhar assim significa o fim do conteúdo pelo conteúdo.

Todos sabem que, na prática, as mudanças ainda vão consumir muito tempo até serem bem assimiladas. Até lá, continuarão existindo as boas e as más maneiras de catequizar. Mas que ninguém duvide: esse novo jeito de educar, que dá oportunidade a todos de aprender, será “a” referência em educação e, mais cedo ou mais tarde, servirá para diferenciar os melhores catequistas e as comunidades que merecem destaque. Por um motivo simples, quem não se actualizar vai formar pessoas fora do seu tempo.

Fonte: Catequese Express

10 comentários leave one →
  1. MPereira permalink
    Outubro 8, 2008 17:10

    Padre: não sei com fazer para disponibilizar os feed somos amadores aprendemos por tentativa e erro, muita carolice e muita leitura na net que nem sempre ajuda…
    Se puder e quiser fazer esse favor de nos orientar ficamos muito gratos.
    O nosso ingles também é bem fraquinho…mas estamos motivados para aprender!
    Obrigada
    catequese.cucujaes.gmail.com

  2. Manuel permalink
    Outubro 8, 2008 23:27

    Quando se fala em competências, fala-se em aptidão, habilidade, mais formação, mais e melhor conhecimento, mais e melhor qualificação

    Quando se fala em evangelização com competência, não me basta “crescer” para Deus, no modo como a Marília e o Ricardo o fizeram e o explanaram nos seus trabalhos sobre o crisma, mas, também, é preciso “reciclar”, aprendendo novos métodos, novos conceitos.

    Resumindo, para ser catequista preciso de formação, assim como para ser médico preciso de formação…

    Agora eu pergunto, padre José Sá, mas não é disso que o Papa Bento XVI mais receia, quando diz (sic) “Quando damos às pessoas conhecimento, habilidade, capacidade técnica e ferramentas, damos muito pouco… a secularização e o materialismo substituíram a fé”?

    ..e, mais ainda, esta para que todos meditem, “…que a evangelização é ainda mais fundamental que o combate directo à pobreza – ainda que os dois estejam associados… espalhar a palavra de Jesus Cristo era mais importante do que toda a ajuda de emergência para o desenvolvimento que as igrejas ricas, como as da Alemanha, davam aos países pobres.”

    Como é que eu vou querer saber seja o que for com a barriga vazia?

  3. Outubro 9, 2008 01:17

    Lendo o episódio dos discípulos de Emaús, Jesus, querendo muito entrar em casa dos amigos, faz de conta que segue caminho. Ele deseja ser convidado. Enquanto Ele não entrar em nossa casa, partilhar a nossa mesa, continuará a ser um estranho. Mas para que isso aconteça, é preciso, primeiro, incendiar os seus corações. As pessoas precisam sentir a falta. É preciso saber questionar as pessoas para que elas se questionem. É preciso que elas sintam a necessidade do convite. Nesse sentido, a educação tem de ser global, isto é, abranger a cognição, a emoção e os comportamentos.
    As competências ensinam a pessoa a pesquisar, a analisar de uma forma crítica, numa atitude activa, tendo em vista uma mudança de pensamento, e de comportamento.
    Na catequese, estamos a falar de coisas sem primeiro provocar a necessidade de as ouvir. São importantes. Mas podem não ser consideradas como tal. Corremos o risco de falar de coisas passadas, há muitos anos, mas que pouco ou nada têm a haver connosco. É preciso actualizar, mostrar que ainda hoje, aquilo que Jesus pregou, tem actualidade.
    O que questionamos é a metodologia que está a ser utilizada. É preciso arriscar a pensar diferentes para agir diferente. E temos tanto a aprender com as teorias da educação. Não existem soluções absolutas. Mas precisamos de avaliar as metodologias, para saber adaptá-las a cada caso e a cada situação.
    Precisamos de afastar o medo, presente em muitos discursos da Igreja. Quando leio os documentos sobre a internet, falam quase exclusivamente dos perigos. Eles existem, é um facto. Mas, não pode ser vista como perigo, mas um desafio. Criemos alternativas atractivas e com valor. Porque é que as coisas de Deus têm de ser uma “seca”? Mas não têm de ser. É disto que falamos. Utilizemos a pedagogia do Mestre: ouçamos os homens, entremos na vida deles, calcemos os seus sapatos, utilizemos a linguagem deles, e então eles estarão disponíveis para ouvir a mensagem de Vida que lhes queremos apresentar. Jesus, faz de conta que não sabe o que se passou, para que os discípulos falem. Não julga saber tudo. Ele sabe da necessidade de falarem do que sentem, para depois ouvirem.
    Ele disse, um dia: “carregais as pessoas com fardos pesados e nem sequer lhe tocais com um dedo”. Estaria a falar de quem?!!

  4. Marisa permalink
    Outubro 9, 2008 09:07

    Sei de uma Paroquia muito pobre, o padre ainda muito jovem (com várias paroquias)procurou conhecer os seus paroquianos, percorrendo as aldeias e conversando com quem encontrava.
    Encontrou uma mulher já no final da tarde cuidando da horta junto à casa (velhinha) conversou um pouco com ela…
    às tantas elas diz-lhe: Tenho que entrar senhor abade o meu homem vai trabalhar à noite e tenho que dar-lhe a janta e preparar-lhe a marmita.
    O marido aparece e pergunta ao padre: “quer comer coagente?”
    E o padre aceita!!!
    Na mesa só havia pão uma sopa muito pobre e batatas, cebolas cozidas com couves.
    A mulher desculpava-se por não haver carne para lhe oferecer.

    Mas o marido abrindo a sua lancheira retirou de lá um nacozito de carne de porco, que depositou no prato do padre.

    “Agradeço muito esta sopa quentinha, mas a carne vai novamente para a sua marmita, porque eu a seguir vou dormir,
    não devo comer muito, enquanto o Sr. M. vai trabalhar toda a noite”

    Não foi um caso isolado, na hora da janta, qualquer paroquiano podia convidar o padre que passava e conversava, para partilhar a sua ceia.

  5. miná ( Famalicão) permalink
    Outubro 9, 2008 21:41

    Muito poderia dizer sobre o assunto, mas fico-me por esta frase:« quem não se actualizar vai formar pessoas fora do seu tempo»

  6. Manuel permalink
    Outubro 9, 2008 23:42

    Um dos principais problemas para o insucesso escolar é a fome. A fome física e a de mentalidades. Esta, a das mentalidades, adquire-se com mais e melhor formação.

    Estou completamente de acordo quanto à necessidade de um melhor conhecimento, a uma mudança de atitude, para que, aquilo que estou a dar, seja captado.

    O maior problema está nas chefias da igreja. É preciso uma revolução de mentalidades dentro da própria igreja cristã católica.

    Porque, quanto à nova metodologia a usar na evangelização, ela já foi, por diversas vezes, referida neste blogue.

  7. José Sá permalink*
    Outubro 11, 2008 00:40

    Efectivamente, o tema das novas metodologias é recorrente neste blogue. Considero-o demasiado importante para que não seja valorizado, E dado o forte enraizamento das metodologias tradicionais, que mesmo reconhecendo a pouca eficácia, não existe coragem de mudar. Talvez por não se conhecer outras possibilidades. Não existem respostas exactas e soluções absolutas. Mas é preciso ouvir, reflectir e discutir essas teorias, para uma mudança na prática.
    Sobre as chefias da Igreja tenha a dizer o seguinte: efectivamente é preciso mudar muita coisa. Mas porque esperamos por eles? Preguiça mental? Talvez precisemos mudar nós, para provar que vale a pena, e eles virão atrás. Sempre foi assim, infelizmente. As orientação verticais, não exigem reflexão, mas aceitação. Não concordo. Esta mudança pode, e terá de ser, horizontal, entre nós, trabalhadores, que se encontram ao mesmo nível, e estão dispostos a analisar, reflectir, discutir e encontrar soluções alternativas, flexíveis e adaptadas ao estilo de vida em que vivemos. Devemos evitar a homogeneidade, o caminho único.
    Fazia-nos bem, sair da “sacristia” e ir para o mundo em que se debate estas temáticas. Assim teríamos bases para discutir. Ainda hoje, dia 10, estive o dia todo num encontro sobre Web 2.0 na educação, na Universidade do Minho. Não vi lá mais nenhum padre. Será que já sabem tudo? Ou isto não interessa? Se não conhecem, porque têm tanto medo?
    Termino com este desabafo: fazia bem aos padres despirem a “batina” e a muitos leigas “vesti-la”.

  8. Manuel permalink
    Outubro 12, 2008 23:54

    A web 2.0 é uma ferramenta extraordinária de grande amplitude e quando se fala em novas metodologias, deve-se ter em atenção que elas não passam obrigatoriamente pela internet.

    Uma proposta nova de captar a atenção das crianças, foi-nos presenteada pela catequista Fatima, neste mesmo blogue, onde ela nos descreveu um dia de catequese passado nas ruas/matas da sua paróquia…

    – “Saímos muito, um lindo dia de sol é aproveitado para fazer a catequese ao ar livre (temos a sorte de ter uma mata perto), dar graças a Deus por tudo o que nos dá (a sombra, os pássaros, esta linda mata, a vontade de rir para todas as pessoas…) e privilegiamos a família, os encontros com os pais, a partilha e a procura de soluções.”

    È importante debater este tema, falar, analisar, reflectir, discutir e encontrar soluções alternativas, flexíveis e adaptadas, mas há que colocar as ideias surgidas do debate em prática, sem medos e é neste aspecto que me parece não haver avanços e os que há são casos isolados.

    A questão que eu coloco ao Padre José Sá é a seguinte: -Quem é o orientador catequético, quem é que traça as linhas orientadoras para que a catequese que eu quero transmitir, seja, de facto, captada e amada?

    Então, se a sua ideia é numa perspectiva de mudança metodológica, porque é que ainda não se fez, que vos falta, mas afinal que receios são esses?

    Padre José Sá, leva tempo as pessoas a tomar uma decisão e depois a adaptar-se à novidade. Nesse sentido, entendo que, deverá provocar, no povo, essa mudança, chocar se preciso for.

    Estou de acordo consigo quando diz que o debate deve ser feito entre iguais, mas alguém tem que dar o primeiro passo….

    Quanto à “batina” padre José Sá, gostei da sugestão, quem sabe um dia…

    Um abraço fraterno

  9. Outubro 13, 2008 01:29

    Obrigado pelo abraço. Em relação às metodologias, estou de acordo. Não estamos apenas a falar das tecnologias da Web 2.0. O segredo não está nas tecnologias. Está nas pessoas, que têm objectivos, e utilizam os meios necessários para os atingir. As tecnologias é que estão sempre ao serviço da pedagogia. É preciso, primeiro, uma estratégia. Só depois surge a tecnologia, ou outra dinâmica. A atitude das pessoas é que deve ser a de uma nova geração. Falamos de uma mudança na forma de ver a aprendizagem da fé, e na forma de a vivermos. É preciso não nos limitarmos à transmissão passiva dos valores da fé, mas ensinar a pensar, a reflectir, a fazer caminho, de uma forma activa, consciente.
    Em relação ao orientador da catequese: existe um Secretariado Nacional, que dá orientação gerais. Depois, em cada Diocese, existe um departamento da catequese, que tem a missão de concretizar mais essas orientações na Diocese. A seguir, a nível arciprestal, existe uma equipa que procura auxiliar na organização e formação de catequistas. Depois, existe a catequese paroquial, em que o pároco é o primeiro responsável pela gestão e pelo caminho que desejam seguir. Finalmente, compete a cada catequista, no seu grupo, saber adaptar-se ao seu grupo.
    Quando os “grandes responsáveis” decidem mudar, torna-se mais fácil. A responsabilidade não é nossa. A culpa será sempre dos outros. Mas porque não fazer o caminho inverso: serem os trabalhadores, no terreno, a seguir um caminho e a apresentá-lo aos “responsáveis”?
    Estas mudanças são, sobretudo, uma mudança de postura e atitude. Não é preciso alterar o esquema de dar catequese: experiência humana, Palavra de Deus e expressão de fé. Ele está correcto. Ler o que escrevi acerca da experiência humana. É disso que falo.
    Sobre a coragem de mudar, eu, enquanto responsável e conhecedor da realidade das minhas paróquias, e pelos estudos que efectuei, sobretudo no âmbito do meu mestrado, e pelos conhecimentos e experiência no campo da catequese, sinto que tenho alguma autoridade para sugerir estas mudanças. E faço-as. E partilho, com quem quer, as minhas reflexões e experiências. Concluo com o seguinte: formemos pessoas que pensam de uma forma crítica e não “carneiros” (pessoas que seguem o caminho dos outros, sem pensar, sem questionar. Esse nunca será o seu caminho, mas o dos outros).

  10. Outubro 13, 2008 01:38

    Já agora, este artigo que estamos a comentar, nem é da minha autoria. Mas coloquei-o para que se veja de que não sou o único a pensar desta forma.
    Porventura, podem pensar que as coisas têm de mudar. Não são as coisas, somos nós, na nossa forma de pensar e catequizar.

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