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Catequese 2.0

Janeiro 19, 2009

A liturgia deste fim de semana recordou-nos uma coisa, seguindo a pedagogia de Jesus: para se conhecer alguém, não chega ouvir falar. É preciso fazer a experiência do encontro. Só se conhece bem alguém quando entramos em sua casa, mesmo fisicamente falando; conhecemos os seus hábitos, os seus valores, a sua forma de pensar, a forma como recebe, o valor que dá ao convidado, etc.

Isto faz-nos recordar algo que é recorrente neste blogue: dizer as coisas não é uma boa maneira de aprender nem de ensinar. A aprendizagem acontece quando o fazemos pessoalmente, e envolvemos todos os agentes. As crianças não são um depósito vazio à espera que o catequista as encha de coisas muito boas. A catequese deve proporcionar o encontro pessoal, individual, irrepetível e único da cada criança/jovem com Deus, ao seu ritmo, e com toda a sua história, personalidade e identidade. Recordem, fixem e concretizem esta ideia: Diz-me algo e esquecerei; mostra-me algo e recordarei; envolve-me e eu aprenderei.

Por isso intitulei este artigo de catequese 2.0, isto é, uma catequese de segunda geração. Inspirei-me na Web. Efectivamente, a Web 1.0, de primeira geração, é caracterizada por sites estátidos, de sentido único, de alguém que disponibiliza uma página na internet, mas da qual não recebe feedback. É uma web passiva, que apenas disponibiliza informação mas não constrói conhcimento nem gera aprendizagem significativa. A Web 2.0 é caracterizada por dois sentidos, isto é, alguém publica algo e espera retorno, e desta forma constroem conhecimento em cooperação a partir das experiências e pesquisas individuais, que passam a ser de todos.

A catequese 1.0 defino-a como estática, como pura transmissão de conhecimentos, que as crianças recebem de uma forma substancialmente passiva, em que o catequista é o único detentor dos conhecimentos e a criança o recipiente que deve imitar, sem questionar muito, o que recebeu. Para isso, o desejável é que a criança esteja quieta e calada, para não interromper o catequista. É a catequese de um sentido. Quando há debate, e não se deu o tema, pensa-se: perda de tempo, não fiz uma boa catequese. Quando estão caladinhos e ouvem tudo, é sinal de que foi uma catequese muito boa, “disse tudo”, como já ouvi tantas vezes. Mas será que eles ouviram, interiorizaram e aplicam?

A catequese 2.0 defino-a como a catequese em que as experiências das crianças, as suas necessidades e a sua vida é trazida para a catequese. A criança é valorizada e tem-se em devida conta toda a teia de ligações a que a criança está sujeita, conforme nos elucida a teoria sistémica. Em que a criança não é um simples recipiente para receber, mas também ela é portadora de algo que deve ser considerado na catequese. Procura-se envolver a criança no processo de aprendizagem, possibilitando um encontro pessoal com Jesus, em que possa dizer o que quer (esta foi a pergunta feita aos discipulos: Jesus quer seguidores que sabem o que querem). Procura-se o diálogo, a reflexão critica, a pesquisa, a partilha de ideias, a problematização das questões, que a catequese seja dinâmica e tenha a ver com a vida real.

Sei que os catecismos não ajudam. Mas não se esqueçam que são apenas uma orientação. Aprendemos a andar sem muletas. Peguemos nos temas que eles sugerem, e recriemos toda a catequese, de forma a torná-la interessante, significativa, desafiantes, activa, envolvendo os miúdos e com tudo o que eles sabem e são capazes de fazer. Não apresentemos coisas concretas, mas criemos debate em torno do que será possivel fazer. Ouvir é muito importante.

Chegou a altura de progredir para uma catequese de segunda geração, UMA CATEQUESE 2.0.

Quero ouvir a vossa reflexão. Pensem e partilhem.

7 comentários leave one →
  1. Manuel permalink
    Janeiro 19, 2009 23:17

    Se bem o entendi a:
    CATEQUESE ACTUAL (1.0) = Dar
    CATEQUESE PRETENDIDA (2.0) = Partilhar

    Sem muito meditar, gostaria de colocar a seguinte questão:
    – ESTARÃO OS/AS CATEQUISTAS PREPARADOS(AS) PARA A PARTILHA, PARA A COMUNHÃO DE SABERES, PARA OUVIR AS CRIANÇAS, PARA UMA CATEQUESE EM MOVIMENTO?

  2. Janeiro 19, 2009 23:55

    Boa síntese. Quanto à inquietação, é legítima, mas deixo para que os catequistas respondam. Sei uma coisa: quando nós acreditamos realmente que somos capazes, e sabemos o que queremos, os obstáculos convertem-se em desafios, e os medos em oportunidades. Ninguém nasce ensinado. Mas para colher é preciso semear. E antes de correr, é preciso dar os primeiros passos. E já começam a ser dados. Eu quero dar destaque ao que se faz nesse sentido. Quanto aos “velhos do Restelo” não desperdiço tempo.
    Vejam os blogues da nossa catequese. São os primeiros passos:
    http://jesus-e-nos.blogspot.com/
    http://grupo8ano.wordpress.com/
    Mas catequistas, digam de vossa justiça…

  3. Janeiro 20, 2009 14:55

    Antes de mais, parabéns pelo mestrado! E por toda a ajuda que dá aos catequistas!
    Quanto a este artigo, veio de encontro a algo que já me inquieta há algum tempo. Costuma-se dar mais importância ao comportamento. Uma catequese mais silenciosa nem sempre é sinónimo de maior aprendizagem e interiorização. Às vezes, as catequeses bagunçadas, que poriam os cabelos em pé dos catequistas mais idosos (e dos pais), são as que há mais envolvimento das crianças e que elas recordam com entusiasmo. (Por exemplo, um teatro, um jogo, etc)
    Sábado passado, depois de um daqueles momentos de “sermão” (que não gosto de usar porque só 3 ou 4 é que se portam mal e os outros 30 não têm culpa), um catequizando dizia que vinha à catequese porque era obrigado.
    Fiquei a pensar se os catequistas se preocupam em saber o que as crianças pensam e esperam da catequese. Surgiu-me a ideia de fazer um questionário anónimo com algumas perguntas do tipo: porque vens à catequese? o que gostas mais? o que gostas menos? o que gostarias de fazer na catequese? etc. Não sei se isto tem cabimento e qual o seu interesse. Mas gostaria saber quais são as espectativas das crianças (e até das suas famílias) e tentar ir de encontro a elas. Seria uma forma de as “ouvir”?

  4. Janeiro 21, 2009 00:41

    É um bom começo. É preciso conhecer a vida, sonhos, necessidades, ambiente familiar, experiências de vida, gostos, linguagem, para tentarmos utilizar essa linguagem nos nossos exemplos e projectos a desenvolver. Talvez a metodologia de projectos seja uma boa forma de catequizar: propomos actividades, desafiantes para os miúdos, que potenciem a investigação, a reflexão e que conduzam à acção, dentro da catequese e fora dela.

  5. Janeiro 21, 2009 14:29

    Na última catequese propus a construção de um “Album da Fraternidade do nosso mundo”, fruto de trabalhos que eles vão realizar sobre pessoas ou instituições que ouçam actualmente “o grito do povo” e se dediquem a ajudar os outros. Está a haver uma boa adesão. Pode ser este um tipo de actividades a que se refere?

  6. Janeiro 21, 2009 15:18

    Completamente. Importa que as crianças se sintam envolvidas. Só a título de exemplo: há dias, pediram-me uma sugestão para uma catequese do 10º ano, nós somos Igreja. A catequista queixava-se dos textos sugeridos. Concordei com ela. Sugestão: Primeiro, ouvir a opinião do grupo sobre a igreja, e dialogar. Depois, dividirem vários grupos. Eles farão as perguntas para um inquérito/sondagem, para que vão perguntar às pessoas a sua opinião. Até, se der, para filmar. Depois fazerem uma análise crítica às respostas. Como conclusão: que é ser Igreja? Que podemos fazer por ela?
    Depois, irão fazer uma apresentação (cartaz, filme, powerpoint) que irão apresentar à comunidade.
    Esta é uma sugestão. São coisas deste género que falo. Que não seja o catequista a debitar conteúdos, mas que sejam os miúdos a pesquisar, reflectir e agir, sobre a orientação do catequista.
    Por aquilo que tenho acompanhado, dou-lhe os parabéns pelo seu trabalho. Continue.

  7. Janeiro 21, 2009 23:38

    A catequese de segunda geração centra-se nas crianças com quem queremos construir um caminho de fé e de vida.
    Nestes artigos pretendo implementar uma mudança de mentalidade e de atitude por parte do catequista.
    O segredo reside em….
    SABER ADAPTAR, de forma criativa e significativa para as crianças. E saber ENVOLVER.
    A solução de todos os problemas não existe. Precisamos criar as condições e o ambiente potenciadores de reflexão e crescimento. Compete, depois, às crianças, quererem ou não. O catequista não é o responsável por tudo o que de mal acontece.

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