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Catequese:projecto como veículo promotor de mudança

Junho 22, 2009

Num artigo anterior, abordamos esta ideia: em vez de uma catequese orientada por um programa, realizarmos uma catequese como projecto.

Uma catequese por programa, é baseada, quase exclusivamente, por um catecismo, com um programa rígido, inflexível, abstracto e distante da realidade existencial do público-alvo a quem se dirige. O catequista é um fiel transmissor desses conteúdos, e a criança, o fiel receptor, que não precisa questionar, adoptando uma postura passiva. Estamos a falar de uma catequese uniformizada e de estratégias únicas. A simples inclusão de conteúdos digitais e multimédia, não resolve o problema.

Uma catequese como projecto, é substancialmente diferente. A ideia é formular um tema por ano, que seja progressivo. As crianças/adolescentes são convidados a desmembrar a temática, seguindo o seu ritmo, e escolhendo o seu tema, que mais se aplique à sua situação. Todo o trabalho é desenvolvidos, tendo o público-alvo, como sujeito principal do processo. Cada um assume um papel activo, pessoal e comunitário. O tema será desenvolvido com base na descoberta pessoal, por meio de pesquisa, de trabalhos, etc. Esse projecto será apresentado aos colegas e avaliados por todos os interveniente: o sujeito que o realizou, o grupo e o catequista. Os conteúdos multimédia, ou outros, que se opte por apresentar, devem ser feitos a pensar no público em concreto, nas suas motivações, linguagem, caminhada. Não podemos simplesmente mudar o suporte de apresentação para julgarmos que já temos uma catequese moderna, actual e interactiva. A catequese como projecto também deverá ser transversal a todas as áreas de formação da pessoa, tendo em conta a teoria sistémica (tem em conta a influencia, dada e recebida, de um conjunto da teia de relações do individuo).

Uma das estratégias que penso utilizar, é o aproveitamento do canal “Partilhar TV”. Qual a ideia? Elaborar uma grelha de programas. Os diferentes grupos, que queiram aderir, irão desenvolver temas, documentários, entrevistas, que serão apresentados e publicados. Este canal também servirá para a transmissão da Eucaristia (a principio em diferido).

A grande ideia que subjaz a este projecto, é que o mais importante não é chegar depressa a uma meta, mas sim sair, fazer caminho, cada um ao seu ritmo e pelo caminho que escolheu, não se perdendo nas encruzilhadas, mas capaz de recriar e reaplicar todo o conhecimento que construiu.

O papel do catequista passa por ser um facilitador do processo, isto é, alguém que escute, acompanha, dá liberdade, que orienta em vez de impor, que ajuda na escolha que cada um precisa de fazer, que ajuda e orienta a reflexão, e não alguém que pensa em substituição, e ajuda a que cada criança/adolescente, conheça o seu ritmo, as suas competências e os seus limites.O catequista é aquele de faz fazer. Mas este novo papel que o catequista precisa desenvolver, exige muito mais ao catequista, muito mais formação, muito mais preparação. Pode parecer que delega toda a responsabilidade no grupo, mas não. O conhecimento profundo e reflectido de cada elemento do grupo, e a necessidade de preparar materiais, orientar a caminhada de cada um, estando atento às necessidades individuais, exige um trabalho esmerado e uma flexibilidade orientada.

Não podemos reduzir a catequese a conteúdos estáticos que precisam de ser assimilados. Evidentemente que existe alguns que precisam de ser aprendidos. Mas a forma como isso se processa é que deve ser questionado: talvez se deva primeiro criar as condições para que as crianças nos questionem, ao invés de criarmos um ambiente artificial, isto é, explicar sem que ninguém tenha mostrado interesse em saber, sem que ninguém tenha questionado. Isto pode demorar tempo. E, em catequese, parece que não temos tempo, estamos sempre cheios de pressa de chegar a algum lado. E curioso, raramente chegamos a algum sitio. Para educar é preciso dar tempo e ter tempo. É preciso conhecer e respeitar o ritmo de cada um. Caso contrário, todo o trabalho pode não ter qualquer consequência positiva, podendo mesmo, provocar repúdio.

É esta a catequese 2.0, uma catequese de segunda geração. Esta metodologia não é fácil de concretizar. Mas considero que merece uma reflexão profunda e responsável. Pretendo levantar a discussão em torno deste assunto. Serei o único a pensar desta forma? Será que ainda não sentimos a necessidade de mudança de estratégias e metodologias? Aguardo os vossos contributos.

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11 comentários leave one →
  1. Junho 22, 2009 23:44

    Concordo plenamente. E tento. Mas, como diz, é preciso muito mais formação para propôr a catequese. Levar a teoria à prática é bem mais difícil. É mais fácil seguir um guia. Não é preciso pensar…

    Hoje fizemos um questionário sobre o que se lembram terem feito/aprendido durante este ano catequético e o que mais ficou foi a peregrinação a Fátima, a catequese em que peregrinos vieram dar testemunho, a participação na Via Lucis e no terço. Nada de teorias, mas aquilo que viveram. Aquilo de que fazem experiência é que fica.

    No próximo ano, os nossos catequizandos vão fazer a Profissão de Fé. Penso que o tema deveria ser a fé, o credo, que fé professamos. Gostaria de envolver os pais e outras pessoas da comunidade que viessem à sala da catequese dar testemunho, que as crianças pesquisassem sobre porque vêm as pessoas à missa, se acreditam em tudo o que dizem no credo… É nesse sentido a catequese 2.0? Já agora, estou receptiva a sugestões…

  2. Junho 23, 2009 00:38

    Obrigado pelo seu contributo e pelo seu testemunho. Efectivamente, é muito dificil ser o pioneiro. Desbravar terreno é dificil. Mas também é desafiante. Acho que devemos partilhar mais experiências, dúvidas, reflexões. Permita-me a sugestão: e que tal largar o catecismo, pegar no tema da fé, ver qual as necessidades dos miúdos, dialogando com eles, cada um segue o seu caminho, envolver os pais, e não só, fazer documentários, fruto de pesquisa e reflexão, e culminar com uma peregrinação, orientada para o tema da fé, em que pelo caminho de vai conhecendo mais e melhor a pessoa em que acreditamos? Esqueçamos o programa. Criemos o nosso projecto. O projecto de cada jovem. Isto é catequese 2.0
    Não tenhamos medo de errar. Os erros são caminhos para a verdade. E na metodologia do projecto, não há o certo e o errado. Há um caminho a fazer, individual mas em interacção com o grupo de pertença.

  3. Junho 23, 2009 11:16

    Todos nós nos queixamos dos elementos perturbadores da catequese. Poderá ser por feitio. Mas não será porque a catequese não lhes diz nada?
    Quando damos um passeio, já repararam como diferentes pessoas olham para a paisagem de modos distintos, contemplando o que vai mais ao encontro da sua sensibilidade e experiência de vida?
    Com o projecto catequético, faríamos algo do género: Um caminho, com diferentes propostas, em que cada elemento escolhe a “paisagem” que mais precisa, melhor se adequa, e segundo o momento que vive. Deixamos de ter uma única proposta, para termos diversas, em que cada um escolhe e desenvolve de uma forma muito personalizada e ao seu ritmo. Cada um fará o seu próprio caminho, na mesma direcção do grupo, e contando sempre com a interacção e apoio do mesmo. Um desenvolve um tema, outro abordará outro assunto. Ao fim e ao cabo, são diferentes perspectivas da mesma paisagem. E esta riqueza vai fortalecer e enriquecer o diálogo e a interacção. O que estamos, actualmente, a fazer, é querer que todos olhem para a mesma coisa com a mesma vontade. Talvez por isso não resulte como desejamos.

  4. miná(Famalicão permalink
    Junho 29, 2009 14:17

    Esta proposta é no mínimo muito ousada, e não será preciso dizer porquê…
    Várias dúvidas me vão surgindo:
    !º- Durante todo o ano catequético cada ano trabalha apenas um assunto, utilizando diferentes metodologias, como já se disse!?
    2º- O grupo, o catequista, a paróquia tem de se munir de algum material específico( computador, gravador,etc, etc), eu acho que as crianças e adolescentes ficarão entusiasmadíssimos, porque eles próprios serão os « fazedores» do seu proprio catecismos, chamemos-lhe assim

  5. Junho 29, 2009 19:52

    Obrigado pelas questões. Desta forma, conseguimos explorar o assunto de uma forma mais concreta.
    Em relação à primeira pergunta: para entedermos bem a ideia, pensemos num livro. O livro tem muitos capítulos, que se desenvolvem em volta do objectivo geral do livro. Pensemos, por exemplo, na estrutura do livro “Histórias para contar consigo”. Existe um tema geral. Existe depois uma história, que se enquadra no tema geral. No fim da história, o leitor é convidado a responder, mentalmente, a umas perguntas. Pela resposta, o leitor será conduzido a uma outra história. E esta escolha depende exclusivamente do leitor. Vários leitores, partindo de um ponto comum, podem seguir por caminhos diferentes, mas idênticos e próximos, pois todos conduzem a uma meta comum, o tema do livro..
    Quanto À segunda pergunta: as paróquias, ou as catequistas, terão de investir, em primeiro lugar, em formação: não apenas teológica e bíblica, mas no âmbito da psicologia, das ciências da educação, e das TIC.
    Depois, dependendo dos grupos, mas um portátil é suficiente para um grupo. Não será preciso um projector. Os recursos da Internet, são gratuitos. Mas atenção: isto são apenas ferramentas. Não interessa mudar apenas o suporte de apresentação. A questão não está em obtermos mais recursos digitais. Mas na forma de fazer catequese.
    As pessoas agarram-se à transmissão de conteúdos, porque é algo de “palpável”, porque da outra forma, torna-se mais dificil quantificar. Mas é isso o que interessa, quantificar? Não digo que não seja importante e não haja lugar para isso. Mas talvez seja mais importante qualificar.
    Mais perguntas….

  6. miná(Famalicão permalink
    Junho 29, 2009 20:05

    Elas irão surgindo à medida que se for abrindo caminho, é a minha opinião.
    Logicamente que não basta mudar as ferramentas, mas sim « mentalidades», formas de inter-agir…, mas estou certa que vai haver gente muito prespicaz para lançar muitas perguntas

  7. Junho 29, 2009 23:54

    Terminei uma reunião de catequistas. Debatemos este assunto. Como era de esperar, aplicar esta metodologia nos grupos mais novos torna-se mais difícil. O principio mantém-se. Mas em vez de deixarmos que cada pessoa siga o seu percurso de forma mais autónoma, passa por o grupo seguir o mesmo itinerário, escolhido por eles, envolvendo-os no processo. A grande questão passa por não seguirmos um programa rígido, criado para pessoas que não são as nossas, mas ouvirmos primeiro as nossas crianças, sentir as suas necessidades. Com elas, estabelecermos o nosso percurso, as diferente etapas, e avançarmos. Se o grupo for autónomo, desenvolvamos essa autonomia nos temas. Se o grupo não for tão autónomo, façamos de forma diferente.
    A catequese deverá ser mais feita com perguntas que façam pensar, e menos de certezas. A catequese, sem deixar a sua dimensão divina, deve ser mais humanista.

  8. Fatima Fontes permalink
    Junho 30, 2009 09:33

    Não existem fórmulas mágicas, nem respostas certas, penso que todos já sabem, o caminho sobre como fazer uma catequese de maior qualidade. Encontram-se na própria fonte da nossa fé, a Bíblia, e na história da Igreja. Fico triste quando vejo catequistas verdadeiramente apaixonados pela catequese, incapazes de reagir perante estas situações, oferecer experiência humana de sentido, de luz, de vida, Capaz de conduzir à transcendência de si mesmo, por dar razão de esperança e motivo profundo à existência. Dar a conhecer Jesus Cristo.

    Em minha opinião, eu concordo com a mudança, sim, mas em primeiro temos que mudar nos catequistas, eu falo por mim, tenho que mudar em algumas coisas. Abraçar este projecto com muito garra e força é preciso começar por dentro e querer.
    E EU QUERO.

  9. Junho 30, 2009 17:15

    Esta ideia do projecto não é sinónimo de falta de orientação. É preciso elaborar objectivos para os diferentes anos, que sejam progressivos.
    No principio, vamos orientar-nos pelos temas dos actuais catecismos. Cada um irá desenvolver as estratégias de acordo com o grupo que tem.
    Temos um grande obstáculo, seja qual for a situação: a motivação dos miúdos. Tentemos diferentes estratégias. A certa é a que recolher melhores resultados.

  10. Junho 30, 2009 23:02

    Apesar de muitas pessoas dizerem que os miúdos não se interessam por nada, quando as propostas que lhes apresentamos são interessantes, eles se animam e se empenham. É claro que é difícil motivar 34 ao mesmo tempo! Um dos miúdos não se interessou nada pelo “Álbum da Fraternidade” e nem quis fazer nenhum trabalho de pesquisa; no entanto, designou o “Álbum da Fraternidade” como “o que guarda no coração” deste ano catequético.
    Tenho sempre o cuidado de lhes perguntar se gostariam de fazer “tal coisa”. Nunca imponho mas proponho e peço opinião. Há uns tempos atrás, alguém me disse que não adiantava ficar pedindo opinião às crianças porque elas não sabem dar ideias. Nós é que temos que dizer o que é para fazer. Fiquei triste com essa ideia que é muito generalizada de que as nossas crianças não pensam. Mas elas só não se dão ao trabalho de pensar porque lhes damos “a papinha feita”. Sempre que peço opinião, elas dão boas ideias e como sentem que a ideia foi delas, mais se empenham.

  11. miná ( Famalicão) permalink
    Julho 1, 2009 16:52

    Porventura este é o tema lançado neste PARTILHAR que mais comentários tem suscitado. Todos os dias há questões ou opiniões novas.Que bom! É sinal que alguém está inquieto e com vontade de fazer algo diferente.Tenho apreciado todos os comentários e cada um me leva a uma nova reflexão: este 10º foi muito interessante e concreto; eu também acho que questionar e pedir opinião aos catequizandos, traz muitas vantagens, mas igualmente mais atenção e sentido de orientação do catequista; mas é para isso que nós lá estamos, para orientar, motivar, encorajar
    Estou na sua linha

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