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Já não tenho medo de ti, Senhor

Agosto 27, 2009
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Já não tenho medo de Ti, Senhor! Sinto-me leve, Livre, Feliz,
E bendigo-Te por isso.
É que, confesso, temia-Te um pouco… Não era muito, pois não?
Mas era demais. Pois, no meu coração silencioso, de quando em quando vagamente inquieto, eu pensava que seguir-Te a tremer não era seguir-Te.
Não é culpa minha, Senhor, disseram-me tanta coisa!
E tanta coisa que já não se diz, mas que nos fica na memória, a envenenar-nos o coração.

Disseram-me que era mau fazer isto, porque era pecado, e pior ainda fazer aquilo, porque era pecado grave,
E que seria castigado pelos meus pecados.
Pelos pequenos levemente e pelos grandes para sempre… A não ser que eu pedisse perdão para evitar o castigo.
Para tanto bastava… passar pelo confessionário, e lá voltar novamente, cada vez que fizesse um pecado grave.
Era assim, Senhor, que eu, como criança, pensava.

— Perdoa-me — Que, para evitar o castigo eterno, bastava não nos andarmos a atormentar a vida toda, mas, “arrependermo-nos” no último momento.
É certo que nos lembravam que não sabíamos o dia nem a hora,
como Tu próprio no-lo tinhas dito. E alguns pregadores sinceros e zelosos Brandiam, assim a ameaça do Inferno
para fazerem voltar a Ti os pecadores extraviados. Quanto maior era o medo, maior o número de regressos e maior a alegria!

Isso era dantes… Mas um antes que marcou os nossos avós de hoje.
E se Te falo disto hoje, Senhor, é porque muitos fiéis têm saudades desse passado. Queixam-se que os padres só falam…
de amor, e já não de pecados e de penas eternas. Se fossem mais severos, dizem eles, Encheriam as igrejas cada vez mais vazias, pois teriam mais medo!
É horrível. Senhor!

Não julgo os corações, creio na sinceridade. Mas como podemos deformar a tal ponto a Tua Mensagem?
E que tudo isso era verdade! Mas será verdadeiramente verdade não falar a um ser vivo senão de doença a curar e de morte a evitar?
Será verdadeiramente verdade fossilizar o amor em gestos calculados e verificar meticulosamente e fielmente as contas? E medir-lhe a pureza pelo respeito de todas as normas estabelecidas?
Como podemos acreditar, Senhor, sem o desnaturar, que o amor possa algum dia nascer do medo.
E, se o céu é amor como Tu és Amor, que um medo qualquer possa preparar-nos para entrarmos nele um dia?

Como podemos acreditar, Senhor,
que, para Te seguir, basta respeitar as leis e cumprir regularmente alguns ritos religiosos,
sem verificar escrupulosamente como vive o nosso coração,
Coração que bate, às vezes, regularmente em atalhos,
deixando de bater em caminhos planos e belos?

Como podemos acreditar que o céu se merece, que temos de o ganhar — e assim lhe pomos um preço, como se o amor estivesse à venda e não fosse gratuito!

… Mas é tão duro, Senhor, acreditar deveras nesse AMOR e viver o dia-a-dia disponíveis, de tal modo que possamos recebê-lo de Ti!

Senhor, devo pedir-Te perdão,
Porque, se não tremi de medo diante de Ti,
Por vezes, como muitos homens, ao pensar na morte e no que está para além dela,
tão inquietante e misterioso, tentei agir como deve ser, para me prevenir.

Contudo, Senhor, dias houve em que Te senti mais perto:
Tinhas-me seduzido. Mas não Te segui, embora “Tu” me acenasses. Contentei-me com uma vida conveniente
e com práticas religiosas mais ou menos regulares, pensando que bastava seguir a regra para poder estar em paz.

Mas o Teu amor é fiel, Senhor, e Tu acompanhas-nos,
E, no meu caminho quotidiano, fui-Te reconhecendo pouco a pouco e descobrindo lentamente.

A TI.

A Ti, que vieste revelar que Deus era AMOR
e nada mais, A Ti, que nos ensinaste a chamar-lhe Pai Nosso,
pois somos Seus filhos, A Ti, que nos deixaste um só mandamento: amar.
A Ti, que, ao confiares a chefia da Igreja
ao Teu primeiro representante na terra, apenas lhe perguntaste: “Pedro, tu amas-Me?”
Era a Ti, Senhor, que eu devia seguir, e seguir por amor.
Eu não lamento, Senhor,
pelo contrário, antes agradeço mil vezes,
aos padres que me fizeram finalmente compreender
que foste Tu que nos amaste primeiro, Que a base da fé é, antes de mais, acreditar
e depois deixar-se amar, E que o essencial da religião é amar-Te e amar todos os irmãos
como Tu nos amaste.
Já não tenho medo de Ti, Senhor!
E não é o medo que me mantém de pé, tentando seguir-Te.
É certo que não sou puro,
Tu sabe-lo,
e estou longe de o ser! Mas, quando rezo a Ti, parece-me que já não é para manter uma relação importante, da qual se tiram não sei que numerosas vantagens, mas, ouso dizer…

é porque Te amo, porque quero desenvolver a nossa amizade
E, Contigo, melhor servir todos os irmãos, os homens.
Agora sonho… por vezes,
E orgulho-me disso, E fico louco de alegria,
Sonho ver-Te face a face,
deixar-me enfim amar,
amar-Te sem reservas e ver um dia reunidos todos os homens, como irmãos, em família, em redor do nosso Pai.

O único medo que me resta, e desse sofro mesmo,
É o medo de não amar bastante como Tu,
GRATUITAMENTE.
(Oração de Michel Quoist)

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6 comentários leave one →
  1. miná ( Famalicão) permalink
    Agosto 30, 2009 23:01

    Que bela esta oração! Mas também quão misteriosa!
    Às vezes também eu sinto «medo»! …Mas, medo, não sei de quê e de quêm! Será que é de Ti, Senhor?Não, não pode ser de TI ! Mas então de que é que eu tenho «medo»?

  2. Agosto 31, 2009 13:09

    Sem querer particularizar nada, muitas vezes temos medo de nós mesmos, dos complexos que desenvolvemos no nosso insconsciente, fruto de uma formação religiosa, provavelmente, muito minuciosa e casuística, em que tudo era pecado, e em que era mais fácil a um camelo entrar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Temos de ter cuidado com interpretações, tendenciosas, que fazemos ou que deixamos que nos influenciem. Estamos muito marcados pela ideia de que nao valemos nada diante de Deus. Esquecemos que estamos a contrariar o que Jesus nos diz no evangelho de que nós valemos muito para Deus? Que o próprio Deus nos amou incondicionalmente. E se é incondicional, ou é, ou não é. E se é, é sempre, senão deixa de ser verdade aquilo que pregamos. Deus não nos criou para sofrer, como muitas vezes ouvimos. Deus criou-nos para amar e sermos amados, no fundo, para sermos felizes. E como diz alguém, “se amar é estar errado, então quero estar errado”. Tantas vezes se carregou as pessoas com fardos pesados e nós (hierarquia) nem com um dedo lhes tocamos. Tantas regras e leis canónicas cuja única finalidade é controlar e manipular as pessoas segundo os critérios puramente humanos. A lei foi feita para ajudar o homem a ser feliz, e não o homem foi feito para cumprir as leis. No evangelho deste domingo, Jesus apresenta-se como o primeiro incumpridor de leis, não por capricho, mas desde que estivesse em causa o bem das pessoas. E nós hoje, tão diferentes de Jesus…
    Senhor… dá-nos coragem e discernimento para te apresentar como tu te apresentaste…. Senhor, dá coragem a todos os teus seguidores de o fazerem sem medo, sem preconceito, em liberdade de qualquer coacção, mas também de uma forma comprometida porque apaixonada.

  3. miná(Famalicão permalink
    Agosto 31, 2009 17:11

    Não há problema algum em falarmos abertamente sobre este assunto; já o fizemos pessoalmente mais que uma vez…Eu não tenho medo de Deus, os meus medos são mais pessoais, mais concretos, mais «medo» da minha própria consciência; não acredito que tenha sido, ou é, fruto duma formação« aterrorizadora», não de todo! Não tenho nenhum trauma psicológico em relação a este assunto; o que eu acho é que quanto mais nos interrogamos a nós mesmos mais dúvidas,mais obstaculos se nos colocam para vivermos tranquilamente! Então muito facilmente nós esquecemos como o nosso Deus se preocupa tanto connosco, como é clemente e compassivo…Eu sei tão bem disso, mas…

  4. Marco permalink
    Setembro 25, 2011 03:18

    Amigo ótimo texto, a cerca de 10 anos me converti e passei a seguir fielmente ao senhor, tudo isto me deixou profundamente feliz. Porém, passados dez anos comecei a observar que estava me sentindo triste e não conseguia entender o porque de estar “fazendo o certo” e mesmo assim não alcançando a benção prometida quando diz “meu fardo é leve, meu jugo é suave”. Depois de profunda reflexão comecei a perceber que na tentativa de guardar todos os mandamentos de Deus nestes anos me vi como humano e pecador constante (pecados cotidianos), longe de alcançar a perfeição e ser merecedor das bençãos e salvação. Percebi também que possuía medo de Deus, que havia criado diversas barreiras e critérios para poder ser abençoado ou ter um relacionamento com Deus, embora eu soubesse que Deus me amava todo dia lá no fundo eu achava que ele sempre estava descontente comigo e isto tirava minha alegria. Faz algum tempo que decidi definitivamente retirar o medo de mim e toda a religiosidade, e posso garantir que não é fácil e muitas vezes vejo pessoas cheias de medo pregando o medo as outras, hoje só falo de coisas boas e procuro deixar tudo que possa colocar medo nas pessoas, espero me livrar de todo medo e aceitar o amor de Deus.
    Abraços…

  5. Setembro 26, 2011 18:00

    Muitas vezes confundimos o respeito com medo. O verdadeiro respeito surge fruto do amor, e este só nasce do profundo conhecimento da pessoa amada. Mas o conhecimento verdadeiro não pode ser construído sobre os alicerces do preconceito, do medo.
    Bonhoffer diz isto: “O cristão não vive simplesmente pela lei moral. Os cristãos também vivem pela graça de Deus e pela influência do Espírito Santo… isso torna a nossa acção uma justiça mais alta que simplesmente o literal cumprimento da lei. Porque o amor não conhece nenhum limite, ele sempre cumpre a lei”.

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