Skip to content

Arte de ouvir

Novembro 2, 2009
tags:

Estranho mundo este, em que vivemos. Cheio de contrastes e tão antagónico. Nunca como hoje, temos auto-estradas, carros rápidos, máquinas para tudo, lavar roupa, aspirar. Tudo em nome de mais rapidez e poupança de esforços para termos mais tempo para outras coisas. Nunca como hoje temos tantos modos de comunicar, do qual a internet e o telemovel são o expoente máximo. E talvez, nunca como hoje, se comunica pouco, e se tem menos tempo. Menos tempo para os outros, para a família, para Deus, e até para nós próprios. Não temos tempo para cuidar do nosso asseio, e do nosso interior, como tempo para a leitura, a reflexão , a contemplação. Cada vez mais andamos stressados, angustiados, deprimidos. O processo para atingir a felicidade está a dar provas de impotência.

As pessoas cruzam-se diariamente, participam em eventos sociais,  mas permanecemos sozinhos, isolados dentro de nós mesmos. Falamos de tudo, damos conselhos, mas continua a ser difícil falarmos de nós mesmos, da nossa história, do nosso pensamento.

Algo que também ajuda a esta situação, é a dificuldade de encontrarmos alguém que tenha desenvolvido a arte de ouvir. Alguém que não julgue, que saiba colocar-se no lugar do outro, que não se limite a conselhos superficiais, capaz de entender o outro no seu contexto de vida, respeitador dos limites e fragilidades, capaz de perceber os sentimentos mais profundos e captar os pensamentos que as palavras não expressam.

Esta solidão amplifica a solidão interna, que pode conduzir ao abandono da nossa vida. Não dialogamos connosco, não discutimos os nossos problemas. E uma pessoa que não dialoga consigo, que não se escuta, que foge de si mesma, pode ficar rígida e implacável consiga mesma, desenvolvendo sentimentos de culpa e destrutivos da sua auto-estima. Pode conduzir outros à alienação, à ausência de formulação de objectivos de vida, de tomada de consciência de si e dos outros. Estas pessoas revestem-se de uma carapaça de insensibilidade, dureza, orgulho. Mas no fundo sabem que não são assim, apenas se recusam a confrontarem-se. Daí que, tanto uns como outros, tenham dificuldade de se olharem ao espelho.

Jesus apresenta uma proposta de felicidade que passa pela consciência de nós mesmos, de aceitação dos limites, e de reconhecimentos das qualidades. De amor próprio, e de amor ao próximo. Uma proposta que ajuda a desenvolver a arte de ouvir, por nós e pelos outros. Uma proposta de paz interior. Sem ela, ninguém é feliz. Uma proposta de verdade com o nosso interior, a nossa mente. Uma proposta de abertura à novidade, para sabermos contemplar e apreciar o belo e o prazer, e de aprendizagem com os invernos da existência. A felicidade não é uma estrada apenas com retas. Jesus ensina-nos a sermos felizes nas retas e nas curvas da vida.

Nas sociedades modernos, fazer amigos está a converter-se num artigo de luxo. Porque as pessoas não têm tempo para fazer amigos. Porque é preciso tempo para criar laços, para cativar e deixar-se cativar. O amigo cultiva-se e conquista-se. E se queremos ser felizes, temos de ter tempo… para o essencial. A felicidade não é uma meta, e um estado definitivo. É um caminho…

Advertisements
3 comentários leave one →
  1. Novembro 3, 2009 13:59

    A Felicidade é mesmo um caminho, vivida e sentida ao momento… dá muito trabalho, constrói-se no dia-a-dia. Sozinhos não poderemos edificar essa construção. É preciso estarmos disponíveis e dar, dar para receber. É muito bom ter amigos, mas realmente na correria desmedida em que vivemos, não temos tempo nem para nós nem para os outros.
    Lamento não poder estar mais disponível para os meus amigos, para os que me rodeiam ou se cruzam comigo no dia-a-dia, os quais me fazem sentir tão bem se os souber ouvir.
    Vamos tendo decepções, mas há que acreditar nas novas amizades.
    O bom relacionamento, a boa partilha, deveriam ser bem exercidos, para o progresso não refugiar as pessoas na solidão.

  2. Carina Oliveira permalink
    Novembro 3, 2009 21:26

    A arte de pensar!!!
    Por vezes esquecemos que a vida é para ser vivida um dia de cada vez, sem pressas!
    Ás vezes, para ter mais tempo andamos a “1000” á hora, e esquecemos tudo á nossa volta. Isto não aconteceria se desse-mos mais atenção aos pormenores que vão acontecendo ao longo da nossa vida, porque quando olhamos para trás já metade dela está vivida sem darmos conta de tal.
    Sei que não é fácil…mas se andarmos devagar e com tempo, podemos fazer tudo o que gostamos de fazer ( descobrir coisas novas, que no entanto até um sonho nosso)…
    Temos de dar importância até á mais pequeníssima coisa!
    Pensem nisso e no quanto podem fazer feliz uma PESSOA ESPECIAL

  3. miná ( Famalicão) permalink
    Novembro 6, 2009 23:00

    Tanta verdade expressa em tão poucas linhas!
    Revejo-me em algumas situações aqui citadas, que já passaram por mim…
    Dou muita importância às pessoas em geral, mas particularmente aos amigos.
    Apetece-me dizer: faz Senhor com que eu cultive a arte de escutar o OUTRO!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: