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Olhai os lírios do campo

Setembro 20, 2010

SintoniaEste fim de semana a liturgia da palavra falava-nos de que não podemos servir a Deus e ao dinheiro. É uma chamada de atenção para que nós valorizemos outros valores que não o dinheiro. A qualidade de vida não vem de fora para dentro. Se queremos ter paz, precisamos de olhar a forma como pensamos, como protegemos as nossas emoções, como gerimos os nossos pensamentos angustiantes, como nos deixamos afectar pelos nossos traumas, medos e erros. Eu posso ter uma cama de ouro, num quarto de um palácio, mas o dinheiro não me compra a tranquilidade para dormir em paz. Essa tenho de a conquistar. Por isso, a qualidade de vida vem de dentro para fora. Agora, se eu conseguir isto em primeiro lugar, nada impede que eu tenha a dita cama de ouro, desde que eu não a entenda como sendo prioritária.

Valoriza-se mais o que é material. Valoriza-se mais os problemas. E se não aprendermos a gerir os nossos pensamentos, e a dialogar com eles, de uma forma flexível e crítica, os problemas vão parecer-nos inultrapassáveis e provocar angústias.

Jesus ensinou-nos a valorizar as pequenas coisas, a descobrir o encanto nas pequenas coisas. É por detrás das pequenas coisas que se revelam as grandes pessoas. Um dia, Jesus ia a caminhar, rodeado de muita gente, que o bombardeava com os seus problemas e angústias. Jesus nada respondia. De repente para, no meio de um campo e diz: “Olhai os lírios do campo… olhai como são belos. Escutei os pássaros como voam. Olhai como Deus cuida deles”. Imaginemos as pessoas chocadas. Elas a falarem dos seus problemas, e Jesus manda olhar para a erva do campo, que pisamos. Jesus, o mestre da sabedoria da arte de viver, sabia, que precisamos de arejar a nossa cabeça, deixar-nos encantar com a beleza da vida e dos pequenos pormenores (não no sentido da mesquinhice). É esta forma de ver a vida, que faz com que nos afastemos um pouco dos problemas, e quando olharmos para eles, já perderam a sua forçam porventura desapareceram ou perderam importância. O problema não esta na dificuldade, mas na forma como eu a interpreto, analiso e deixo que me afecte.

5 comentários leave one →
  1. Miná permalink
    Setembro 20, 2010 21:45

    Primeiramente parabéns pelas flores, que não saõ lírios, mas são lindas; só isso já me arejava a cabeça, acreditem!Quem me dera conseguir olhar assim os problemas! Claro que, com Jesus; só podemos aprender « boas coisas»…De qualquer forma, faz-me pensar e reflectir; bem-aja

  2. Setembro 20, 2010 22:43

    Estes pensamentos e ensinamentos de Cristo são lindos, verdadeiros e simples. Mas não pensemos que, por esses motivos serem atendíveis, sejam fáceis de ser trabalhados. Exige treino e perseverança. Mas se eu acreditar neles, torna-se possível.
    Diz-me em que acreditas e dirte-ei quem és. O que acredito, la no fundo de mim, é aquilo que me define, na forma de pensar, sentir e agir.

  3. Setembro 21, 2010 13:54

    Cântico da Esperança

    Não peça eu nunca
    para me ver livre de perigos,
    mas coragem para afrontá-los.

    Não queira eu
    que se apaguem as minhas dores,
    mas que saiba dominá-las
    no meu coração.

    Não procure eu amigos
    no campo da batalha da vida,
    mas ter forças dentro de mim.

    Não deseje eu ansiosamente
    ser salvo,
    mas ter esperança
    para conquistar pacientemente
    a minha liberdade.

    Não seja eu tão cobarde, Senhor,
    que deseje a tua misericórdia
    no meu triunfo,
    mas apertar a tua mão
    no meu fracasso!

    Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera”

  4. Fátima Fontes permalink
    Setembro 21, 2010 18:19

    Ajuda-me Senhor!
    Tira de mim o peso desta imensa dor
    Carrega pra longe essa mágoa
    Da vida comigo não ter sido
    Um imenso jardim florido
    E ensina-me a aceitar
    Esse campo de batalha
    Por onde eu estou sempre a lutar

    juda-me Senhor!
    A compreender tanta dificuldade
    A enfrentá-las com dignidade
    Ajuda-me a ter coragem
    Muita resignação
    A sobreviver a tanta aflição

    Ajuda-me Senhor!
    A atravessar meus caminhos
    Que estão cobertos de espinhos
    Sempre com muito carinho
    Sem temor
    Seja qual for
    O tamanho da minha dor

    Ajuda-me Senhor!
    A erguer o meu olhar em sua direção
    Sempre que o meu coração
    Quiser meus olhos roubar
    E obrigá-los para baixo olhar

    Ajuda-me Senhor!
    A manter meu corpo saudável
    Minha mente equilibrada
    Minha alma aconchegada
    Minha vida organizada

    Ajuda-me Senhor!
    A caminhar ao lado da razão
    Sem nunca esquecer da emoção
    A aceitar toda e qualquer desilusão
    A perdoar quem me trai
    A amar quem me quer bem
    A conviver, até mesmo, com o que não me convém

    Ajuda-me Senhor!
    A esquecer o que passou
    A seguir em frente
    A encontrar quem me oriente
    A pisar em terra firme
    A viver o presente

    Ajuda-me Senhor!
    A buscar dentro de mim mesma
    A solução para as minhas dificuldades
    E clareia a minha realidade
    Com sua luz divina
    Que a todos ilumina

    Ajuda-me Senhor!
    A sua maneira…
    E me perdoe se pedi demais
    Porém, não vou voltar atrás
    Porque só a Você posso implorar
    Sabendo que nada irá me cobrar

    Ajuda-me Senhor!
    E perdoa-me se pedi a minha maneira
    Sem ser numa igreja
    Ajoelhada
    Compenetrada
    Orando o Pai Nosso e fazendo o sinal da cruz…
    Mas me ensinaram que em qualquer lugar
    Eu encontraria Jesus!

    (Autor desconhecido)

  5. Manuel permalink
    Setembro 21, 2010 23:49

    Olhai os Narcisus no campo.

    Partilho convosco esta bonita história escrita por Douglas Wood
    Apesar de um pouco extensa, vale a pena ler até ao fim.

    ESCUTA AS VOZES DA TERRA

    Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito. Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, eu fazia imensas perguntas:
    ― Avô, porque é…?
    ― O que se passaria se…?
    ― Será que às vezes…?
    Um dia, perguntei:
    ― Avô, o que é uma oração?
    O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta:
    ― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores?
    Pus-me à escuta, atento, mas foi em vão.
    ― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu.
    Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou:
    ― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade.
    Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso. Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar.
    ― Avô, os ribeiros também murmuram?
    ― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça. Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair…Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras. Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na beleza do mundo…
    Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens. O meu avô sorriu e passou-me a mão pelos cabelos. Respondeu:
    ― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Pode-se passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de expressão, de linguagem…. Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração.
    Passado algum tempo, o meu avô disse que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta:
    ― Será que há respostas para as nossas orações?
    Sorriu.
    ― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo.
    Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi. Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio. Sentia-me muito só.
    Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o barulho da água.
    Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente:
    ― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô!
    Foi então que algo aconteceu.
    Senti – outra vez – o meu avô perto de mim…
    E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito.

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