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Tradição vs crescimento

Junho 23, 2011

No deserto, as frutas eram raras. Deus chamou um dos seus profetas, e disse:

– Cada pessoa só pode comer uma fruta por dia.

O costume foi obedecido por gerações, e a ecologia do local foi preservada. Como as frutas restantes davam sementes, outras árvores surgiram. Em breve, toda aquela região transformou-se num solo fértil, invejado pelas outras cidades.

O povo, porém, continuava comendo uma fruta por dia – fiel à recomendação que um antigo profeta tinha passado aos seus ancestrais. Além do mais, não deixava que os habitantes das outras aldeias se aproveitassem da farta colheita que acontecia todos os anos.

O resultado era um só: as frutas apodreciam no chão.

Deus chamou um novo profeta e disse:

– Deixe que comam as frutas que queiram. E peça que dividam a fartura com seus vizinhos.

O profeta chegou na cidade com a nova mensagem.

Mas terminou sendo apedrejado – já que o costume estava arraigado no coração e na mente de cada um dos habitantes.

Com o tempo, os jovens da aldeia começaram a questionar aquele costume bárbaro. Mas, como a tradição dos mais velhos era intocável, eles resolveram afastar-se da religião. Assim, podiam comer quantas frutas queriam, e dar o restante para os que necessitavam de alimento.

Na igreja local, só ficaram os que se achavam santos. Mas que, na verdade, eram pessoas incapazes de enxergar que o mundo se transforma, e que devemos nos transformar com ele.

Paulo Coelho

4 comentários leave one →
  1. Miná permalink
    Junho 23, 2011 23:14

    É, se não acompanhamos as mudanças que vão acontecendo, corremos o risco de «cair no chão» como aquela fruta apodrecida! As nossas tradições, valem pelo que valem e nada mais! Mas há tanta tradição que está ultrapassada, caduca, desajustada.E este desajustamento acontece em nós e em muitas instituições de grande peso na sociedade!!! Só porque é tradição, deixa-se tudo conforme está! Não queria entrar muito em pormenores pois posso ser mal interpretada, mas que me dá pena, dá:::

  2. Junho 24, 2011 01:11

    O mal das tradições é que elas fizeram sentido no seu tempo. Mas quando não se é capaz de reflectir e adaptar continuamente, caímos no vazio, e na esterilidade das tradições. Fazer ser saber porque. Agir sem objectivos. sinal de medo, e de cobardia intelectual. Não aprendemos nada com o nosso Mestre, Jesus?

  3. Junho 27, 2011 23:13

    È bem verdade Jesus quando iniciou a sua vida pública deu um abanão nas tradições e mostrou um Deus diferente, um Deus que é amor, que não castiga, um deus que nos leva ao colo quando precisamos. porque é que então temos medo de conviver com Ele? Ajudando os outros quer seja fisicamente, quer seja partilhando,ou ter tempo para uma conversa quando sentimos que precisam de um ouvinte.

  4. Manuel permalink
    Junho 30, 2011 14:10

    Texto fantástico! Não só exprime a ideia da assunção do erro pelas ovelhas tresmalhadas (pelo menos por algumas), como expressa a possibilidade dessas mesmas ovelhas serem mais cristãs, mais evangelizadoras, mais próximas de Cristo do que aqueles que, apesar de continuarem “dentro” da igreja, ao apostarem nos mesmo rituais, pouco ou nada acrescentam à evangelização.
    Muitas das tradições deveriam ser, unicamente, memórias de momentos fantásticos, porque simplesmente falam de um tempo que já lá vai. Mas, se soubermos adaptá-las às necessidades actuais, são acrescentos ao nosso crescimento interior.
    Se pensarmos um pouco na história da humanidade, na sua transformação, a todos os níveis, verificamos que “parar no tempo” nada tem a ver com “tradição”. Penso que foi isso que aconteceu ao método catequético. Parou no tempo!
    Se a mensagem é boa (como diria o padre José Sá) o que é que falta para ela passar?
    Método (responderia eu), novas formas de tu me ouvires e reteres o que eu diga.
    Permitam-me um conselho (que não é meu, mas do padre José Sá,
    – Mexa-se o açúcar!

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