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Um Deus sem clã

Novembro 14, 2012

Aquele clã era muito especial. Os seus membros possuíam o saber supremo.
Quando se dirigiam aos homens, falavam sempre de cima. Tinham consciência do seu saber supremo.
Apesar de ridículos aos olhos de muitos, eram ridículos preciosos.
Falavam de coisas que os homens não entendiam. Consideravam-se altifalantes do céu.
Os membros daquele clã não eram profundamente culpados. Outros, que não eram seus pais ou mães, tinham-nos feito assim.
Foram moldados para terem sempre razão.
Por isso nunca tinham nada a aprender dos homens e mulheres comuns.
Tinham certezas claras e indiscutíveis.
Aprenderam-nas em academias de saber supremo e profundo.
Quando falavam da vida só diziam o que tinham aprendido nos livros ou nas academias.
De Deus diziam apenas o aprendido.
Não tinham experiência do que diziam.
Tinham sempre receitas para as questões humanas.
Para este clã, o ideal é que os homens fizessem o que eles diziam.
Eles detinham o saber supremo.

Foram moldados para ensinar a verdade. Esta era aprendida nos bancos da academia.
A sua verdade não sintonizava com a vida dos homens.
Mas era a verdade que os homens deviam aprender.
Sempre que a humanidade deu saltos qualitativos desrespeitou a sua verdade.
Este clã situava-se acima e fora do comum dos homens.
Os que se deixavam manipular por eles ficavam seres empobrecidos de experiência e de vida.
Tornavam-se prolongamentos do clã.
Falavam de Deus, mas não o tomavam a sério.
Tomar alguém a sério é escutá-lo, dialogar, trocar impressões.
Dirigiam-se a Deus como se dirigiam aos homens: através de palavras formais, fórmulas, discursos.
A oração, para eles, não era diálogo.
Não se dirigiam a Deus como um filho se dirige a um pai ou a uma mãe.
Liam fórmulas, rezas, ou diziam palavras decoradas. Isto não é maneira de dialogar com alguém a sério.
A sua oração eram rezas que contabilizavam. Concebiam Deus no além distante.
Eram homens que pretendiam trazer Deus do além para o aquém dos homens.
Por essa razão, contabilizavam rezas e ritos.
Não percebiam que Deus é a interioridade máxima do Universo.
Não compreendiam a equidistância e omnipresença de Deus.
Julgavam que o divino estava lá e vinha cá.
Não entendiam a supra espacio-temporalidade de Deus.
Se a compreendessem não pretenderiam localizar Deus em lugares sagrados.
Nenhum lugar pode ter a pretensão de reter Deus.
Esta linguagem era totalmente estranha para os membros daquele clã.

Não compreendiam que Deus não está fora e acima.
A única janela aberta ao encontro com Deus é a interioridade pessoal-espiritual do homem.
A este nível, o homem é já transcendente.
Só a este nível se pode dar o encontro com Deus.
Por não entenderem estas coisas, os membros daquele clã procuravam levar Deus aos homens.
Não percebiam que nenhum homem leva Deus aos outros.
Deus está presente ao homem no coração da sua interioridade pessoal-espiritual.
Os homens apenas podem ser mediações para que os irmãos se encontrem com Deus no interior de si.
Como não percebiam de Deus, também não percebiam do homem.
Por isso, os seus discursos eram tão pouco eficazes. Nenhum outro clã tinha tantas cátedras como aquele. Nenhum outro clã falava tanto de fora e de cima como aquele.
A sua verdade não sintonizava com o coração do homem. Não percebiam que o homem é a única imagem que Deus fez de si.
Todas as outras são feitas pelos homens. Só Deus sabe quem é e qual o seu projecto. Aprender Deus implica aprender o homem. O clã pretendia saber Deus acima e fora do homem. Por isso o seu discurso é tão estéril. O clã pretendia-saber o homem por revelação directa. Por isso não se preocupava com comungar a vida dos homens.
Falava de fora e de cima.
Quem se coloca fora e acima do homem, acaba por mutilar a humanidade.
Os clãs que se puseram fora e acima do entretecido humano universal mutilaram sempre.
O nazismo pretendia-se a raça eleita e sublime.

O comunismo pretendeu ser o clã dos iluminados. Considerava-se o clã consciência dos pobres e explorados. – O nazismo e o comunismo mataram porções significativas de humanidade.
Mutilaram muitos homens e mulheres que não cabiam nos seus esquemas.
O clã do saber supremo também foi causa de violências, guerras e martírios atrozes.
Como não sintoniza com os homens, está a diminuir o número dos seus membros.
Existe no coração humano uma sabedoria secreta.
É o sexto sentido de que fala o povo.
Graças a esta sabedoria, os homens intuem aquilo que não serve o bem da humanidade.
Por isso não aderem ao clã.
Cada vez são mais os homens e mulheres que só querem gastar a vida por causas humanizantes.
Ao longo da história, o clã do saber supremo nunca esteve à frente das grandes transformações sociais, políticas, económicas ou religiosas.
Não é o autor dos direitos humanos.
Não é facilitador de liberdade de opinião, agrupamento ou expressão.
Como detém a verdade, desconfia sempre das conquistas que os homens fazem.
Não foi o clã que esteve na descoberta da verdade que existe entre a terra e o sol.
Não tomou a iniciativa na abolição da escravatura.
Sempre que a humanidade faz conquistas no campo da luta contra as doenças e a procriação responsável; sempre que os homens avançam no sentido de conquistas no campo da justiça, o clã não está na frente da luta.
Mas gosta de dar opiniões, normas, preceitos a partir de cima e de fora.
Chega sempre tarde às grandes conquistas dos homens.

Por isso não é luz na marcha da história.
A luz é boa na medida em que alumia o caminho.
Para isso tem de ir à frente. Não presta quando vai atrás.
Apesar de desfazado, o clã continua convencido.
De cima e de fora, continua a dar normas, preceitos e leis.
Pensa salvar a humanidade através de ritos.
Os ritos não salvam ninguém.
As cerimónias não convencem Deus (Is 1,12-17).
A humanidade avança apesar do clã estar fora e acima.
Envolvido nas suas rezas, o clã não dialoga com Deus nem com os homens.
O diálogo só é fecundo e válido em clima de igualdade e reciprocidade.
Quem se pretende acima e fora não é capaz de diálogo.
Dialogar é crescer na verdade com o diferente.
Fora do clã começa a surgir vida profunda de Evangelho.
São cada vez mais os homens e mulheres que já compreendem a oração, encontro com Deus no Espírito Santo.
Orar é dirigir-se a Deus à maneira de Jesus.
O Espírito Santo ajuda-os a compreender-se nesse diálogo como filhos e filhas.
Em diálogo comunitário, estes homens e mulheres vão crescendo na sabedoria de Deus.
Esta não é produto das academias do clã do saber supremo.
A princípio o clã não os tomou a sério.
Ao ver que se multiplicam, porque são fecundos, o clã tenta recuperá-los.
Não procura aprender com eles.
Os membros do clã não podem aprender.
Têm a sabedoria suprema.
Os homens e as mulheres que aprendem a sabedoria de Deus, recebem-na do Espírito Santo.
Jesus disse que essa sabedoria é oculta para os sábios e entendidos.
Só se revela aos simples (Mt 11,25-26).

Os membros do clã apenas tiram a glória uns dos outros. Convidam aqueles de quem pretendem ser convidados. Nesta arte são peritos.
Ao pretender recuperar estes homens e mulheres, o clã não o faz para aprender e se modificar.
A sua preocupação é continuar a ditar, de cima e de fora, normas, preceitos e leis.
Deus não tem clã. Ama os homens todos. Para estar com os homens incarnou em humanidade.
Deus não se coloca acima e fora.
Circula no coração do homem pelo Espírito Santo.
Revela-se no coração do diálogo e da partilha.
Os clãs que se colocam acima e fora não são mediações de Deus.
Não são agentes da libertação do homem. Os que se deixam dominar por clãs tornam-se míopes, fanáticos, intolerantes.
Os clãs tendem sempre a substituir os homens.
Ao longo dos séculos sempre houve tendências para criar clãs.
A humanidade conhece clãs ao nível das ideologias, da política, da economia e da religião.
Em qualquer destes níveis, os clãs tentam dominar, substituir, mutilar o homem.
Por isso, Deus é um Deus sem clã.
No tempo de Jesus havia um clã com pretensões de sabedoria suprema.
Ditava leis, normas, preceitos e ritos em nome de Deus.
Jesus denunciou com firmeza os males feitos por este clã. O pior é que o fazia em nome de Deus.
Em vez de clã, propôs a comunhão de irmãos.
Jesus sonhou com um povo constituído em comunidades fraternas.
Era um povo comunhão de comunidades.

Era uma força de fraternidade num mundo marcado pela prepotência dos clãs.
A sua proposta era:
Não vos trateis por mestres uns aos outros. Só o Espírito que circula por todos é o Mestre. Vós sois todos irmãos (Mt 23,8).
Não vos trateis por pais. A paternidade decisiva nesta frente de fraternidade é a de Deus (Mat 23,9).
Não vos trateis por doutores. O único doutor, possuidor do saber de Deus, é Cristo (Mt 23,10).
Na comunidade de irmãos ninguém ensina Deus. Todos conhecem o Senhor, no Espírito Santo (Heb 8,11).
Não há normas, leis e preceitos. Há atitudes e gestos inspirados pela fraternidade e a partilha.
Não há cultos e ritos bem definidos. Estes não agradam a Deus (Heb 10,5).
Por isso Cristo os aboliu. Pôs em seu lugar a vontade de Deus, como novo culto (Heb 10,6-10).
Este culto não tem leis. É o culto na verdade (fidelidade) e no Espírito Santo (Jo 4,23-24).
A autoridade fraterna é serviço à fraternidade.
Quando se põe acima e fora, não é autoridade, mas poder.
Deus não é um Deus de poderosos.
O poder é abuso da autoridade.
No povo de Deus devem existir critérios de Deus e não do mundo.
Os grandes e poderosos dominam as pessoas e ainda se chamam de benfeitores (Lc 22,35).
No povo de irmãos não deve ser assim. É maior o que serve melhor (Mt 20,26).
São estes os critérios do Deus que não tem clã.
Com estas denúncias, Jesus incomodou o clã que, no seu tempo, se colocava acima e fora.
O clã sentiu-se ameaçado. Viu o perigo e vingou-se: matou Jesus em nome de Deus.
Aquele clã falava em nome de Deus.

Mas Deus não falava neles.
Por isso perdeu a marcha da revelação da Boa Nova. Os clãs que se põem acima e fora acabam por perder a marcha da história.
(Calmeiro Matias, in Histórias de Deus e do homem)

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