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Que Papa…

Julho 17, 2013
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Cem dias de Francisco: a mudança a caminho

por ANSELMO BORGES

 Depois do tsunami da resignação de Bento XVI, impõe-se uma mudança radical na Igreja. O papa Ratzinger ficará na História sobretudo por causa da renúncia, que acabou por humanizar o papado, dessacralizá-lo e abrir portas para a urgência de um rumo diferente.

No passado dia 13 de Março, ao comparecer perante a multidão, sem pompa, simples, cordial, quase tímido, inclinando-se perante todos para receber a bênção de Deus através da oração dos fiéis, o cardeal Bergoglio, agora com o nome de Francisco, mostrou ao que vinha: renovar a Igreja, segundo o projecto de Jesus, ao serviço da humanidade. Segundo o testemunho de um padre de Buenos Aires, Bergoglio tinha-lhe dito: “Se a minha mãe e a sua mãe ressuscitassem hoje, implorariam ao Senhor que as enviasse de novo para debaixo da terra, para não assistirem à degradação desta Igreja.”

E a revolução está em marcha. De modo natural, de tal modo natural que se fica espantado por ser notícia precisamente o que não devia sê-lo. Por exemplo, desejar “boa noite”, “bom descanso”, “bom almoço” ao povo. O Papa tornou-se humano, vendo-se claramente que o seu desejo e preocupação é o bem-estar, a saúde, a alegria de todos.

Reside na Casa de Santa Marta, rejeitando o Palácio Apostólico, para evitar a solidão e ter uma vida sadia no meio de gente. Um gesto de profundíssimo significado. Para se perceber, imagine-se, escreveu o jornalista Marco Politi, que Obama deixava a Casa Branca ou a Rainha de Inglaterra abandonava o Buckingham Palace, preferindo um alojamento ao lado da Victoria Station. O que se recusa agora é a imagem da “sede apostólica” como centro de um poder de cariz divino. Para impedir que “a burocracia vaticana se cubra de pretensões de infalibilidade” e reforçar “o pedido aos bispos do mundo para que não adoeçam com a “psicologia dos príncipes””. É urgente ir para as periferias, no sentido geográfico e existencial.

Na Missa inaugural do seu ministério, dedicou a homilia ao cuidado, pedindo um favor a todos quantos ocupam lugares de responsabilidade no âmbito político, económico ou social, a todos: “Por favor, sejamos “guardiões” da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do meio ambiente.” O poder só vale enquanto serviço: o bispo de Roma, sucessor de Pedro, “também tem um poder”, mas “nunca esqueçamos que o verdadeiro poder é o serviço”.

Acentua permanentemente o amor de Deus e o seu perdão. Quer uma Igreja “de portas abertas” e não “controladores da fé”. “A crise é o resultado do capitalismo selvagem”, que impôs “a lógica do lucro a qualquer preço, sem atender às pessoas”. Critica as máfias que exploram as pessoas e as reduzem à “escravatura”. Previne os eclesiásticos contra “o carreirismo”. Ele próprio não queria ser Papa: “Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa.” “Somos todos iguais aos olhos de Deus. Eu sou como um de vós.”

Mas não basta um novo estilo pessoal. A Igreja é uma imensa organização, que precisa de reformas institucionais urgentes. E aí está a denúncia do “lóbi gay” na Cúria: “É verdade: está aí”, referindo-se, para lá da homossexualidade, a grupos de interesses, poder, influência e corrupção. Para a reforma da Cúria, confia na comissão de oito cardeais de todo o mundo, já nomeada: “Vão levá-la por diante.” Haverá tolerância zero para a pedofilia e para a corrupção no Banco do Vaticano. Para que haja transparência na sua gestão, nomeou também uma Comissão. Nunzio Scarano, um monsenhor ligado à administração, preso na semana passada, já tinha sido suspenso de todos os cargos, e o Vaticano anunciou disponibilidade para colaborar com as autoridades italianas, mostrando-se Francisco disposto a ir até ao fim quanto às acusações de corrupção e lavagem de dinheiro. Já depois desta detenção, o director e o subdirector do Banco demitiram-se.

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